segunda-feira, 15 de março de 2010

Jogos Populares


Introdução
Os estudiosos da área de Educação Física Escolar têm
realizado muitos debates sobre quais conteúdos e de que
maneira estes devem ser abordados pelo professor de
Educação Física no âmbito escolar, tentando assim legitimar
tal disciplina na escola.
O que se percebe é que há muitas sugestões, muitas
propostas teóricas, mas com poucas atuações “na prática”.
Diante disto, nosso grupo de estudos optou por selecionar
o conteúdo jogos populares, conteúdo este já citado por
autores como Kishimoto (1992), Pontes e Magalhães (2003),
entre outros, para colocar em prática, uma vez que segundo
depoimento destes mesmos autores, tais jogos têm sido
substituídos por outros jogos mais modernos como vídeo
games, jogos de computador, ou até mesmo pela programação
da televisão.
Muitas seriam as possíveis explicações para que tal
processo ocorra como o fato destes jogos não terem mais um
espaço físico seguro e adequado devido ao aumento da
violência, aumento do número de carros nas ruas, entre outros
fatores. Além disto, hoje as crianças apresentam uma rotina
diária muito ocupada, com vários compromissos e obrigações,
o que as impede de ter tempo para brincar. Mas nossa
intenção com esse trabalho não é investigar que fatores
levaram os jogos populares a essa situação de “abandono” e
sim, buscar caminhos e estratégias para facilitar o
reaparecimento de tais práticas.
Tendo em vista esse contexto, surgem algumas perguntas
que nos levam a refletir: De que maneira os jogos populares
poderiam contribuir para uma formação mais plena do ser e
auxiliar no resgate de uma cultura popular? Como ele poderia
ser aplicado nas aulas de Educação Física?
Motriz, Rio Claro, v.12 n.2 p.133-141, mai./ago. 2006
Jogos populares na escola: uma proposta de aula prática
Roger Luiz Calegari
Elaine Prodócimo
Departamento de Educação Motora - Faculdade de Educação Física UNICAMP Campinas SP
Resumo: Autores renomados já comentaram sobre as possibilidades dos jogos serem um conteúdo importante. Porém
poucos trabalhos se preocuparam em oferecer uma proposta prática para trabalhar tal conteúdo no âmbito escolar.
Além disso, estudos sobre aplicação de jogos populares nas aulas de Educação Física são mais difíceis de serem
encontrados. Esse estudo teve por objetivo analisar uma proposta de aula de Educação Física pautada nos jogos
populares. Participaram do estudo crianças da 2º série do 1º grau, com idades entre 8-10 anos de ambos os gêneros.
Esse trabalho seguiu como abordagem metodológica a pesquisa-ação. Os dados foram coletados semanalmente através
relatórios. Os resultados apontaram para a possibilidade de desenvolvimento da proposta, bem como da participação
efetiva dos alunos na escolha dos jogos, integrando-os de maneira mais plena ao ambiente escolar.
Palavras-chave: Educação Física Escolar. Cultura. Jogos populares.
Assim, tentando contribuir de alguma forma com essa
discussão, apresentamos neste artigo os resultados de uma
pesquisa realizada pelo nosso grupo de estudos, o qual teve
como objetivo analisar uma proposta de aulas pautadas nos
jogos populares aplicada nas aulas de Educação Física para
segunda série do ensino fundamental.
Revisão Bibliográfica
Nas décadas de 1980 e 1990, verificou-se um forte
movimento de estudiosos discutindo sobre abordagens
metodológicas e conteúdos que a disciplina de Educação
Física deveria desenvolver no âmbito escolar. Esse
movimento contribuiu para que se encarasse tal área de
estudos com outros olhares. Começou-se a partir daí a se
discutir qual papel que a Educação Física deveria
desempenhar e quais conteúdos desenvolver.
Muitas propostas surgiram no decorrer destas duas
décadas. Uma delas foi a do coletivo de autores
(METODOLOGIA... 1992, p. 50), na qual se explica que:
A Educação Física é uma prática pedagógica que no
âmbito escolar, tematiza formas de atividades
expressivas corporais como: jogo, dança, ginástica,
lutas, formas estas que configuram uma área de
conhecimento que podemos chamar de cultura
corporal.
Daolio (2004, p. 2), aprofunda a questão da cultura
afirmando que:
Cultura é o principal conteúdo para a Educação Física,
porque as manifestações corporais humanas são
geradas na dinâmica cultural desde os primórdios da
evolução até hoje, expressando-se, se diversificando e
com significados próprios no contexto de grupos
culturais específicos. O profissional de Educação
Física em si não trabalha com o esporte em si, não lida
com a ginástica em si. Ele trata do ser humano nas
suas manifestações culturais relacionadas ao corpo e
ao movimento humano historicamente definidas como
jogo, esporte, dança, luta e ginástica. O que irá definir
se uma opção é digna de trato pedagógico pela
Educação Física é a própria consideração e análise
desta expressão na dinâmica cultural específica do
contexto onde se realiza.
Como vimos nas citações, os jogos estão presentes na
visão desses autores e é considerado como um dos muitos
conteúdos que deve estar presente nas aulas de Educação
Física Escolar. Compartilhando da mesma idéia vemos nos
jogos a possibilidade de diversificar os tipos de vivências que
as crianças podem ter nas aulas de Educação Física Escolar
buscando assim enriquecer o repertório da cultura do
movimento desses indivíduos.
Acreditando também que além de contribuir com a
estimulação e enriquecimento da cultura do movimento, os
jogos possam auxiliar na construção de valores sociais mais
democráticos, íntegros e mais comprometidos com a vida em
grupo, utilizamos para refletir essa definição que Huizinga
(1980, p 33) faz do jogo quando diz que este é:
[...] uma atividade ou ocupação voluntária, exercida
dentro de certos e determinados limites de tempo e
espaço, segundo regras livremente consentidas, mas
absolutamente obrigatórias dotadas de um fim em si
mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e
de alegria e de uma consciência do ser diferente da
vida cotidiana.
Ou seja, vemos que o jogo instaura uma nova realidade,
uma realidade paralela, em que é possível trabalhar a
socialização nas crianças, mostrar a importância das regras
para a ordem, entre outros objetivos. Nele a criança cresce se
conhece e se reconhece.
Reconhecendo as várias possibilidades de trabalho que os
jogos oferecem, queremos destacar nesse momento os jogos
populares, que a nosso ver seria uma subclasse dentro da
enorme classe de conteúdo de abordagem conhecida por
JOGOS.
Escolhemos os jogos populares como ferramenta para
nosso estudo por acreditarmos na sua grande contribuição não
só nos aspectos já levantados para os jogos em geral, mas
também pela sua contribuição em outras questões, como a
segregação das atividades por gênero. Um dado levantado por
Pontes e Magalhães (2003, p. 120) relata que:
Algumas brincadeiras são típicas de determinados
gêneros. Em nossa cultura, pular corda, brincar de
macaca (amarelinha) e de elástico são brincadeiras
tipicamente de meninas, enquanto jogar peteca e
empinar papagaio (pipa, pandorga, arraia, etc) são
tidas como brincadeiras de meninos. Porém, tal
tipificação parece estar se modificando.
Esse dado ao nosso ver é muito interessante, pois
demonstra uma quebra ou pelo menos uma minimização
dessa segregação por sexo em tais atividades e isso pode ser
um pequeno passo para transferir tal compreensão para outras
situações da vida cotidiana, em que ainda presenciamos essa
segregação.
Outra importância dos jogos populares diz respeito a
cultura regional de um grupo. Pontes e Magalhães (2002)
afirmam, com base nos estudos de Friedmann (1990) que os
“Jogos tradicionais infantis caracterizam uma cultura local. É
interessante observar a existência de certos padrões lúdicos
universais, mesmo com diferenças regionais, variações da
designação ou na existência ou supressão de regras”.

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